Operador sentado em uma cadeira de controle, dentro de uma sala técnica.

A especialidade do mercado de robótica submarina e operações offshore: a evolução de um piloto de rov

Redação: Julliana Silva

Em um mundo em que tecnologias remotas redefinem mercados tradicionais, da automação industrial à gestão de ativos digitais, a narrativa de carreira de um profissional também reflete tendências globais. Uma recente publicação da MEXC destacou que pilotar robôs no fundo do mar sem sair da superfície tem se consolidado, em 2026, como uma das carreiras técnicas offshore mais valorizadas, colocando a robótica submarina no centro das estratégias de eficiência e segurança do setor marítimo-industrial.

A indústria offshore vive um paradoxo: é um dos setores mais tecnológicos e estratégicos da economia global, mas também um dos mais exigentes do ponto de vista humano. Poucos profissionais conseguem transitar com excelência entre esses dois mundos. Igor Barcelo Uchoa de Castro é um deles. Em entrevista à redação do portal, pudemos conhecer um pouco mais sobre a história o trabalho desse profissional ímpar. 

Com mais de duas décadas de atuação em robótica submarina e operações de alto risco, o brasileiro Igor Castro construiu uma carreira internacional marcada por competência técnica, resiliência e uma visão cada vez mais clara sobre o papel da liderança no futuro do setor.

O começo marcado por dificuldades

Nascido em Belém do Pará e criado no Rio de Janeiro desde os primeiros dias de vida, Igor cresceu em um ambiente profundamente ligado ao mar. Filho de comandante da Marinha Mercante, passou a infância acompanhando o pai em viagens pela América do Sul, experiência que moldou cedo sua familiaridade com o universo marítimo. A falência da Marinha Mercante brasileira nos anos 1990, no entanto, mudou radicalmente o rumo da família. A instabilidade financeira o levou a ingressar precocemente no mercado de trabalho, aos 10 anos, conciliando estudo, trabalho e aprendizado prático.

Essa trajetória inicial, longe de ser linear, ajudou a formar um profissional autodidata. Aos 15 anos, já lecionava informática; aos 18, dividia-se entre funções administrativas durante o dia e cursos técnicos à noite. 

“Nunca tive medo do mercado de trabalho. Sempre entendi que conhecimento era a única coisa que ninguém poderia tirar de mim”, costuma afirmar.

Igor Castro em destaque

O ponto de inflexão veio no início dos anos 2000, quando ingressou como estagiário de eletrônica na Subsea7, uma das maiores empresas globais de engenharia submarina. Em um processo seletivo altamente competitivo, garantiu uma das poucas vagas disponíveis e iniciou ali sua jornada definitiva no setor offshore. Pouco tempo depois, conquistou também uma posição no concorrido programa de trainee de ROV (Remotely Operated Vehicle), área que se tornaria sua especialidade.

Entre 2001 e 2006, Igor evoluiu de trainee a piloto júnior, acumulando experiência em operações críticas. Mas foi em 2006 que tomou uma das decisões mais ousadas da carreira: buscar oportunidades fora do Brasil. Sem falar inglês e com recursos financeiros limitados, embarcou para a Malásia em sua primeira missão internacional. “Eu tinha US$ 200 no bolso e a certeza de que precisava ir além. O risco era grande, mas ficar parado era maior”, relembra.

Um salto na carreira internacional

A experiência internacional abriu portas definitivas. Ao longo dos anos seguintes, Igor atuou em operações de extrema complexidade em diferentes regiões do mundo, incluindo resgates submarinos, intervenções em ambientes hostis, missões com risco ambiental elevado e operações em zonas de conflito. 

Entre os episódios mais marcantes estão a participação no resgate de destroços de um helicóptero acidentado na Malásia, missões no Oiapoque em condições severas de correnteza, uma operação de alto risco em Israel envolvendo munição não deflagrada da Segunda Guerra Mundial e trabalhos realizados entre a Somália e o Iêmen, sob ameaça constante de pirataria.

Igor Castro em destaque

Hoje, com base em Portugal, Igor atua como Supervisor Líder de ROV em uma das maiores empresas globais de serviços submarinos, acumulando reconhecimentos por desempenho, liderança de equipes e excelência operacional. Sua atuação é alinhada aos mais rigorosos padrões internacionais de segurança e engenharia, como IMCA, ISO, API e MTCS, refletindo um perfil técnico altamente qualificado e respeitado no cenário global.

Humanização da robotização

Mas sua trajetória recente revela uma inflexão ainda mais estratégica. Após viver de perto situações de risco extremo, incluindo operações próximas ao furacão Ida e ao desastre da Deepwater Horizon e, enfrentar desafios pessoais profundos, Igor passou a olhar para o setor com lentes mais amplas. 

Após a pandemia, Igor passou a observar com mais profundidade uma realidade pouco discutida no setor offshore: o impacto emocional da vida embarcada não apenas nos profissionais, mas também em suas famílias. 

A vivência pessoal teve um papel determinante nessa mudança de perspectiva. Quando sua filha tinha apenas cinco meses de vida, ela foi internada em CTI, e Igor só conseguiu chegar ao hospital cinco dias após a internação, justamente no dia em que ela deixava a terapia intensiva.

A experiência reforçou uma convicção que hoje orienta parte relevante de sua atuação profissional: não é possível sustentar uma carreira de alto desempenho em ambientes extremos sem atenção estruturada à saúde mental.

“O offshore ainda fala pouco sobre o impacto emocional dessa rotina. Não são apenas os embarcados, mas as famílias que ficam em terra. Se não houver equilíbrio, o custo humano é alto demais”, afirma.

Igor Castro em destaque

A partir dessa percepção, desenvolveu um guia prático de apoio emocional voltado a profissionais offshore e suas famílias, abordando temas como estresse, ansiedade, adaptação ao confinamento prolongado, pressão operacional e equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Compartilhando conhecimento e impulsionando vidas

Paralelamente, Igor também passou a dedicar parte do seu tempo à formação de jovens em situação de vulnerabilidade social, atuando como professor de eletrônica e robótica submarina, além de participar como jurado em eventos de robótica e competições técnicas, contribuindo diretamente para a formação da próxima geração de profissionais da área.

Igor Castro em destaque

Hoje, além de liderar operações subsea de alta complexidade, ele também forma, orienta e avalia tecnicamente novos profissionais, mantendo-se presente na vida acadêmica e profissional de seus alunos e orientandos.

A história de Igor Castro é, ao mesmo tempo, um retrato da evolução do setor offshore e um alerta para seus próximos passos. Em um mercado cada vez mais sofisticado, global e exigente, profissionais capazes de integrar excelência técnica, visão estratégica e sensibilidade humana tendem a se tornar o verdadeiro diferencial competitivo.

E, como ele próprio resume: “O mar ensina muito. Mas é fora da água que a gente decide que tipo de profissional e, de pessoa, que quer ser.”

Igor Castro em destaque

Para Igor Barceló Uchoa de Castro, operar robôs a milhares de metros de profundidade exige mais do que conhecimento técnico. Exige equilíbrio emocional, liderança consciente e a capacidade de proteger, simultaneamente, vidas humanas, ativos industriais e o meio ambiente. 

É nesse ponto de convergência entre engenharia, segurança e sensibilidade social que ele consolida seu nome como uma das referências contemporâneas da robótica submarina internacional.